Durante décadas, o dinheiro para as empresas circulava entre dois extremos: i. o investimento tradicional, que busca o máximo retorno sem considerar o impacto, e ii. a filantropia ou a cooperação, com recursos não reembolsáveis, que tinha foco no impacto. Nos últimos 15 anos, cresceu um espaço intermediário: os investimentos que buscam rentabilidade e, ao mesmo tempo, contribuem para resolver problemas sociais ou ambientais.
Esse mercado já é enorme. Segundo a Global Impact Investing Network (GIIN), em 2024 o investimento de impacto somou cerca de 1,57 trilhão de dólares em ativos sob gestão no mundo, com taxa de crescimento anual composta de 21% desde 2019. E a equidade de gênero é um de seus temas prioritários: para muitos desses investidores, uma empresa liderada por mulheres é uma oportunidade.
O que é o investimento com lente de gênero?
É o investimento que, de forma intencional, busca reduzir as desigualdades de gênero, além de gerar retorno financeiro. Um dos referenciais internacionais utilizados são os Critérios 2X , promovidos pela 2X Global. Entre 2018 e 2023, o 2X Challenge mobilizou 33,6 bilhões de dólares em investimentos com lente de gênero, e sua nova rodada pretende mobilizar pelo menos mais 20 bilhões em três anos.
Os Critérios 2X reconhecem várias formas pelas quais uma empresa pode contribuir para a equidade de gênero, entre elas:
- Empreendedorismo: empresas fundadas por mulheres ou de propriedade delas.
- Liderança: mulheres na direção e em conselhos de administração.
- Emprego: trabalho de qualidade para mulheres.
- Produtos e serviços: soluções que beneficiam especialmente as mulheres.
- Cadeia de valor: compras de fornecedoras e de empresas de mulheres.
Isso tem uma implicação importante: sua empresa pode ser atrativa para um investidor com lente de gênero não apenas por quem a fundou, mas também por quem a dirige, por quem ela emprega, para quem vende e de quem compra.
Quatro mecanismos de financiamento que você pode aproveitar
1. Fundos de investimento de impacto com lente de gênero
São fundos que investem em empresas em troca de participação societária e que exigem métricas de impacto. Já existem fundos que investem exclusivamente em empresas fundadas por mulheres ou com equipes de direção majoritariamente femininas, e outros que incluem a equidade de gênero em sua tese de investimento. Também começam a surgir fundos de capital de risco que investem em estágios muito iniciais de desenvolvimento. Um exemplo da região: a AAvance, uma fintech colombiana liderada por mulheres que atende migrantes e pessoas não bancarizadas, foi uma das primeiras empresas a passar pela certificação da 2X Global.
2. Títulos de gênero: mais crédito para empresárias por meio do seu banco
Os títulos de gênero são emitidos por bancos e instituições financeiras, que se comprometem a destinar os recursos a empresas de mulheres ou a iniciativas de equidade. Você não compra o título: o que beneficia você é que seu banco passa a ter mais recursos para lhe oferecer crédito.
A América Latina e o Caribe estão entre os mercados mais ativos neste instrumento. Segundo a Climate Bonds Initiative, até o terceiro trimestre de 2024 a região concentrava 31% das emissões globais de títulos de gênero do mundo, atrás apenas da região da Ásia e do Pacífico. O primeiro da região foi emitido pelo Banistmo, no Panamá, em 2019: 50 milhões de dólares estruturados e adquiridos pelo BID Invest para financiar PMEs lideradas por mulheres. No fim de 2023, a região já somava 26 títulos de gênero, que totalizavam cerca de 2,25 bilhões de dólares, com México, Chile e Colômbia na liderança. Em 2025, por exemplo, o Banobras atualizou no México seu marco de títulos sustentáveis com perspectiva de gênero.
Dica prática: pergunte ao seu banco ou à sua instituição de microfinanças se há linhas de crédito para empresas lideradas por mulheres. Muitas dessas linhas existem graças a títulos de gênero ou à captação de recursos junto a bancos de desenvolvimento, com condições mais favoráveis.
3. Pagamentos por resultados
Com esse mecanismo, uma empresa recebe um pagamento quando demonstra um impacto mensurável que um governo, uma agência de cooperação ou uma empresa tem interesse em alcançar. Também são usados incentivos financeiros baseados em resultados para premiar empresas que avançam na igualdade de gênero. É uma boa opção para empresas cujo modelo ainda não é rentável, desde que gerem alto impacto e saibam medi-lo. Por exemplo, emprego formal para mulheres ou serviços que melhoram a vida das mulheres em suas comunidades.
4. Finanças mistas e subvenções reembolsáveis
As finanças mistas combinam capital privado que busca retorno com recursos não reembolsáveis da cooperação ou da filantropia, que assumem parte do risco. Por isso, conseguem chegar a empresas em estágios mais iniciais. Também crescem as subvenções reembolsáveis: recursos que devem ser devolvidos em prazos flexíveis e sem juros. Hoje, muitos programas de cooperação incluem componentes específicos para empresas de mulheres.
Cinco passos para preparar sua empresa
- Torne sua liderança visível com dados. Tenha à mão números desagregados por sexo: participação de mulheres na propriedade, na direção e na equipe, e a proporção de clientes e fornecedoras mulheres. É a primeira coisa que um investidor com lente de gênero vai analisar.
Para se aprofundar no tema, sugerimos assistir à palestra de Alan Pierce, da Alive Venture, sobre Estratégias práticas para uma medição de impacto eficaz, realizada no ciclo de capacitações Capital Femenino 2026. - Identifique e meça seu impacto. Muitas empresas geram impacto sem tê-lo planejado. Ferramentas como o IRIS+ da GIIN, compatível com os indicadores 2X, ou a Avaliação de Impacto B ajudam você a reconhecê-lo e medi-lo. Mantenha uma contabilidade de impacto paralelamente à sua contabilidade financeira.
- Torne o impacto intencional. Passe de um impacto que acontece por acaso para um que oriente sua estratégia: políticas de equidade, igualdade salarial e protocolos de prevenção do assédio. Esses investidores dão atenção especial aos riscos de gênero.
- Identifique seu estágio. Se sua empresa é jovem, explore finanças mistas, subvenções reembolsáveis e pagamentos por resultados. Se você já tem vendas estáveis, avalie as linhas de crédito com enfoque de gênero do seu banco e os fundos de impacto.
- Conecte-se e torne-se visível. Participe também da comunidade Mujeres ConnectAmericas, com mais de 266.000 mulheres cadastradas. Acesse ferramentas, conhecimento e espaços de conexão para fortalecer seu negócio, ampliar sua rede de contatos e descobrir novas oportunidades de crescimento e internacionalização.
Acompanhe também o trabalho dos capítulos nacionais do GSG Impact (como Impacto Colômbia ou a Alianza por la Inversión de Impacto en México) e o Foro Latinoamericano de Inversión de Impacto (FLII). Crie um perfil gratuito em plataformas como a Innpactia, onde você pode filtrar chamadas por país e por tema, incluindo gênero, e ser encontrada por fundos que buscam empresas para seu portfólio.
Como esse tema apoia as empresas da região?
Reduzir a lacuna de financiamento das empresas lideradas por mulheres não beneficia apenas as empresárias: impulsiona o emprego, a inovação e o crescimento em toda a América Latina e o Caribe. Conhecer o investimento com lente de gênero, medir o impacto e documentar a liderança feminina permite que as empresárias acessem capital em melhores condições e alcancem investidores que valorizam o que elas já fazem: construir empresas rentáveis que transformam suas comunidades.
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